Volkswagen Fusca que custa 'uma boa causa'

Modelo com volante do lado direito pertenceu a cônsul americano na África do Sul

WM1 / 24/09/2014 às 09:58atualizado 13/07/2016 às 17:39

Preservar um carro antigo ultrapassa a barreira de simplesmente proteger a história da indústria automobilística brasileira do efeito corrosivo do descaso. É manter viva a relação entre homem e automóvel, algo difícil de descrever e raro, mas que quando existe é extremamente intensa. Doutor Reginaldo Abrahão, 63 anos, e seu Volkswagen Fusca 1965, com volante do lado direito (mão inglesa), não nos deixam mentir. Ou melhor, nos fazem acreditar…

A história destes dois personagens que vivem em São Paulo começa em 1967. Aficionado por carros desde sempre, algo que herdou do pai, um comerciante de veículos, nunca quis ter um daquelas barcas ‘classudas’ da época, mas sim uma “baratinha”, como os carros menores daquela época eram chamados.

Garotão, ainda com 17 anos e carteira de habilitação nas mãos – algo que conseguiu a partir de uma lei que permitia tirar carta com esta idade -, sempre pedia ao pai um carrinho, que, sem dinheiro, sempre comprava rifas para tentar a sorte grande e realizar o sonho do filho.

Assista ao vídeo do WebMotors com o Fusca 1965


 

Em um determinado dia, o jovem Abrahão foi comunicado pelo seu pai que “um Fusquinha veio por engano para o Brasil e está lá no Consulado americano, e eles vão abrir uma concorrência”. Instigado a ir, conhecer e ver se gostava da máquina para dar um lance, Abrahão, ao ver o Fusca, se encantou. Ou como ele mesmo diz: “Nossa! Paixão à primeira vista”.

O pai e ele decidiram tentar a compra do modelo fabricado na Alemanha em 1965 (motor 1.300) e que pertencia a um cônsul norte-americano na África do Sul, que veio para o Brasil fugido do regime Apartheid. Eles então deram 7.555 cruzeiro. Na realidade, Abrahão iria dar apenas 7.500 cruzeiros, mas por ordem do pai aumentou em mais 55 cruzeiros sua proposta. O vencedor, que havia oferecido 15.000 cruzeiros, não gostou do carro e não levou. O terceiro colocado propôs 7.500 cruzeiros. Resultado: o carro foi para as mãos do garoto de 17 anos por uma margem mínima de dinheiro e pela sabedoria enorme de um pai.

Os dois viveram juntos por pouco mais de um ano. Neste tempo o Fusca passou por modificações estéticas. Coisas, que segundo Dr. Abrahão, os jovens da época faziam. O carrinho também foi ferramenta para muita diversão. “A gente descia as ruas das escolas e um amigo ia do lado esquerdo com um volante falso gritando que o carro estava descontrolado, e todos corriam para dentro”.

E assim como apareceu em sua vida, o Volks se foi. Procurado pelo pai de um rapaz que tinha um problema físico no braço direito e que por conta disso só poderia dirigir carros automáticos - que na época eram importados, grandes e caros - o pai do Dr. Abrahão não perguntou, simplesmente ordenou a venda do carro ao garoto. “Você pode dirigir qualquer um (carro), ele não”, lembra.

No entanto, antes de entregar as chaves ao novo proprietário, Abrahão mandou um recado: “Você não pode vender este carro para ninguém. Eu não mexo com dinheiro. Seu pai acerta com meu pai, mas você me devolve o carro o dia que você não quiser mais ele”.

Algo que parece ter caindo em desuso atualmente, infelizmente, naquela época foi mais forte: a palavra. Dez anos depois, quando Dr. Abrahão já havia se casado e até mesmo se mudado para outra residência, o garoto – que àquela altura também não era mais jovem – bateu sua porta para devolver o Fusca. “A chave do seu carro. A palavra que seu pai teve, a do meu, que já faleceu, eu mantenho. Tá aqui”, conta. Na época – estamos falando do ano de 1978 -, ele pagou o valor de um Fusca 1965, nem um centavo a mais.

E desde então estão juntos até hoje. Mas propostas para vendê-lo também não faltaram…

O proprietário de uma concessionária da Volkswagen, interessadíssimo na exótica máquina por conta de o volante estar do lado direito, chegou a oferecer um Santana novinho. Abrahão balançou com a proposta, afinal, era a oportunidade de ter o primeiro carro zero-quilômetro. No entanto, a condição imposta não foi aceita pelo interessado, que era a de “um Santana zero-quilômetro todo ano”.

Em momentos que a família passou por dificuldades financeiras, especialmente após a morte do pai, o Fusca também surgiu como uma possibilidade de fazer um dinheiro. No entanto, Abrahão sempre arrumava uma maneira de segurar o carrinho. Uma delas, por exemplo, foi ensinar a esposa a dirigir o carro, trocando as marchas com a mão esquerda. “Ela aprendeu e começou a usar o carro no dia a dia, então vendemos nosso Chevette. E durante todos estes anos ele nos deixou na mão apenas uma vez, e por falta de gasolina”, sorri. “Hoje, se precisar vender um carro, primeiro vai o meu de uso, depois o da minha esposa e, por último, o Fusquinha”.

Porém, engana-se quem pensa que este Volks 1965 com volante do lado direito e completamente impecável – ele foi totalmente restaurado de acordo como ele foi fabricado na Alemanha – não tem um preço. De acordo com Dr. Abrahão, a venda está relacionada a uma coisa simples. Exatamente a mesma que o fez vendê-lo em 1968 para o garoto que tinha um problema no braço esquerdo: “é preciso ter uma boa causa”.

Jogador de futebol frustrado, resolveu ser jornalista para escrever sobre tudo que tivesse motor, fizesse (muito ou pouco) barulho e fosse possível de pilotar. Aficionado por superesportivos e clássicos, pensa agora acelerar também sobre duas rodas...

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