Picape chega à 12ª geração

Ainda ‘bruta’, Frontier 2017 é ‘gourmetizada’

Nova geração da picape da Nissan ganha novo conjunto mecânico, visual repaginado e mais itens de conforto

WM1 / 23/03/2017 às 11:30

Enquanto as picapes médias passavam por uma ‘gourmetização’, abrindo mão da brutalidade para se tornarem mais ‘afáveis’, a Nissan Frontier mantinha seu estilo ‘pau para toda obra’. Por isso, ganhou fama de ser uma ‘funcionária exemplar’ e boa de ‘trampo’, algo que, no entanto, nunca a fez decolar nas vendas. Agora, com a chegada da 12ª geração, a Nissan nitidamente se rendeu a tal ‘gourmetização’. Pois é, a Frontier está – definitivamente – mais ‘cordial’. Mas a pergunta que fica é: será que perdeu completamente sua elogiada ‘truculência’?

De imediato, o que chama a atenção na versão topo de gama avaliada – LE 4x4 (R$ 166.700) – é o design. As linhas estão mais suaves e menos sisudas. Assume a identidade da marca, presente especialmente na nova grade frontal. Apesar das ‘rugas’, o estilo ‘caminhãozinho’ da geração anterior ainda agradava a muitos. Mudar, entretanto, era preciso, e a Nissan fez o que deveria ter feito. Passa a estar em pé de igualdade com as demais concorrentes neste quesito.

Vamos, porém, ao que realmente interessa: performance, já que, quando o assunto é picape, beleza realmente não põe mesa.

Para manter as qualidades trabalhadeiras, a Nissan reforçou a estrutura da nova Frontier. O chassi é completamente novo, ganhando oito barras transversais para ampliar a rigidez torcional da picape. Os engenheiros da marca falam em um veículo quatro vezes mais rígido que o anterior – o que é muito! E para aguentar o sofrido piso brasileiro, reforços extras foram aplicados especialmente na suspensão.

Importante ressaltar que esta ‘bombada física’ não deixou a Nissan mais pesada. Pelo contrário. Em comparação à anterior são aproximadamente 80 kg menos – agora pesa 1.985 kg. Aproveitando o gancho das medidas, a capacidade volumétrica da caçamba é de 805 litros e sua capacidade de carga útil é de 1.050 kg – 50 kg a mais que a ‘velha’ Frontier.

Já a forma física da mexicana é muito similar à anterior – está um pouco maior e mais alta. Agora são 5,25 metros de comprimento, 3,15 metros de distância entre os eixos, 1,85 metro de altura e também de largura. Já os ângulos de ataque e saída são 31,6° e 27,2°, respectivamente. Por isso, ao volante, não é preciso se adaptar, pois a sensação é de conduzir a Frontier do passado.

E essa sensação de ser a mesma Nissan antiga fica ainda mais à flor da pele quando o motor funcionando. A Frontier passa a dotar um propulsor 2.3 biturbo diesel de quatro cilindros (injeção direta), abandonando o reconhecidamente bom 2.5 turbodiesel. E apesar da redução da litragem, a potência continua de 190 cv. O torque, por sua vez, teve um ganho imperceptível de 0,1 kgf.m, passando para interessantes 45,9 kgf.m. A vantagem deste novo motor, no entanto, está no momento de entrega de 100% desta força, que acontece a partir dos 1.500 giros – antes era a 2.000 rotações.

Um ponto que agradou foi a nova transmissão automática de sete marchas, que substitui a anterior de cinco velocidades. Com este novo câmbio, a Frontier consegue trabalhar com mais constância em uma faixa de torque ideal. A Nissan está sempre pronta para entregar vigor quando piso fundo no acelerador. Por conta disso, quando se busca uma condução mais suave, a sensação é de que a mudança de marcha demora um pouco a acontecer – o sistema poderia fazer melhor a leitura desta necessidade do motorista e deixar o conjunto trabalhar mais solto.

Algo que incomodou um pouco foi um nível de vibração mais elevado no pedal do acelerador. Com relação ao isolamento acústico, a Frontier não é muito diferente das concorrentes, permitindo que o barulho do motor diesel invada a cabine, quando se pisa fundo no acelerador. Já em velocidades constantes, o barulho some – e parte desta qualidade pode colocar na conta da transmissão, que agora consegue trabalhar com marchas mais altas e jogar as rotações lá embaixo.

A Frontier é uma picape firme, que absorve bem as imperfeições do asfalto – o que não chega a ser uma qualidade, mas sim uma obrigação, já que foi projetada para aguentar situações muito mais extremas. Apesar de continuar sambando com a caçamba vazia, a traseira ‘quica’ menos que a Frontier anterior. Isso se deve muito a uma nova filosofia que a engenharia da Nissan adotou para a suspensão traseira: multilink!

Trata-se de uma decisão que gerou polêmica, pois ao mesmo tempo em que gera um conforto extra, será que não compromete a resistência do sistema? De acordo com a Nissan, não! Aliás, para a marca de origem japonesa a estrutura multilink garante mais robustez e até uma manutenção mais rápida e barata, caso seja necessário algum reparo.

Definitivamente, esta é uma dúvida para o tempo resolver...

Com relação à tração, todas as escolhas são feitas por meio de um seletor, igual ao da geração anterior da Frontier. A mudança para 4x4 pode ser feita a até 100 km/h. Neste primeiro contato com o veículo, não levamos a Nissan em situações mais pesadas de off-road.

Até aqui, falamos apenas de reforços e evoluções técnicas que deixaram a Frontier ainda mais...Frontier! Então cadê a tal ‘gourmetização’? A resposta vem no interior. Apesar de utilizar materiais rígidos (plástico texturizado), os encaixes são bons e não apresentam espaços ou rebarbas. O que melhorou muito foi o visual da cabine, que perdeu o ar ‘caminhão’. Isso se deve muito aos bancos revestidos em couro, ao novo painel de instrumentos com tela entre velocímetro e conta-giros com todas as funções do computador de bordo, volante multifuncional igual ao dos automóveis de passeio da marca, à central multimídia com tela de 7 polegada sensível ao toque (não é compatível a Android Auto ou Apple CarPlay), entre outros.

A direção é hidráulica (poderia ser elétrica, deixando a Frontier ainda mais confortável em manobras curtas, como de estacionamento), mas o ar-condicionado é de duas zonas. Os bancos têm aquecimento – algo desnecessário. Há câmera de ré e sensor de estacionamento traseiro, uma dupla de equipamentos essencial para um veículo deste porte. Os ajustes do banco do motorista são elétricos (bom), mas a coluna de direção tem apenas regulagem de altura, ficando devendo o de profundidade (ruim).

Conclusão

A Nissan desferiu o ‘raio gourmetizador’ contra a Frontier. A picape está mais confortável, com itens de conforto típicos de SUV e que o proprietário da velha Frontier parecia não fazer questão. Isso é ruim? Com certeza não! Principalmente pelo fato de a Nissan também ter feito um trabalho pesado de engenharia para capacitar ainda mais sua funcionária ‘pau para toda obra’ ainda mais casca grossa.

Vamos ver como a nova Nissan Frontier se sai frente à concorrência...

Jogador de futebol frustrado, resolveu ser jornalista para escrever sobre tudo que tivesse motor, fizesse (muito ou pouco) barulho e fosse possível de pilotar. Aficionado por superesportivos e clássicos, pensa agora acelerar também sobre duas rodas...

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