MINI Cooper JCW: muita diversão em pacote 'P'

Hot Pocket utiliza motor 2.0 turbo de 231 cv de potência e chega aos 246 km/h

WM1 / Fevereiro 2016

Tomate Voador. Este era o apelido do Fuscão vermelho do meu tio. Na década de 1980, época em que a preparação vivia seus últimos momentos de romantismo antes da era turbo e da eletrônica pesada, o Volkswagen era temido nas avenidas do ABC Paulista, a 'Detroit brasileira', nas noites de sexta-feira e sábado. Passeei muitas vezes no ‘bólido’ rebaixado, barulhento e que carregava 'N' número de carburadores no motor. Hoje, quase três décadas depois, lembrei de alguns momentos áureos deste hot pocket artesanal que marcou minha infância rodando no MINI Cooper JCW (John Cooper Works) - R$ 162.950.

Não estou comparando Fusca preparado com JCW. Apesar de próximo dela, ainda não atingi a insanidade extrema. No entanto, aquele ‘kart feeling’, a sensação de rodar em um carro pequeno, ágil, divertido, com uma suspensão exageradamente firme, caixa de direção direta, de acelerações fortes e retomadas empolgantes, como era o Tomate Voador, estão, de uma forma mais moderna e tecnológica, neste inglês.

Completamente diferente do 1.600 fuçado até o limite, que em curtas distâncias deixava para trás Opalas e Mavericks, o JCW traz sob o capô um moderno quatro cilindros 2.0 TwinPower Turbo de injeção direta de combustível, que gera 231 cv de potência a 5.200 rpm e torque de 32,6 kgf.m entre 1.250 rpm e 4.800 rpm. Trata-se do MINI mais ‘cabuloso’ de todos os tempos. Pesando 1.295 kg, a relação peso potência é de 5,6 kg/cv.

Em termos de desempenho, de acordo com dados da fabricante, a aceleração de 0 a 100 km/h acontece em 6,1 segundos e a velocidade máxima é de 246 km/h.

A tocada é sempre agressiva. E isso não por opção de quem está atrás do volante, mas por exigência do pequenino de 3,87 metros de comprimento (2,49 metros de distância entre os eixos). A personalidade dele é forte. E muito se deve à forte influência da relação do câmbio automático Steptronic de 6 marchas. A todo o momento a transmissão faz o propulsor trabalhar em rotações elevadas. Passar da casa dos 5.000 giros é rotina tanto nos momentos em que o pé direito está cravado no acelerador como nas reduções.

Chamar a condução para as trocas manuais, seja pela alavanca do câmbio ou, principalmente, pelo paddle shift, é no JCW algo realmente intenso. Sabendo disso, encarei uma estradinha sinuosa, de curvas fechadas e retas curta. Um kartódromo a céu aberto. Divertido? Mais que isso. Uma verdadeira terapia. Ou melhor, uma sessão de descarrego! Mesmo nervoso, o MINI ‘prega no chão’. Com uma caixa de direção elétrica direta acima das expectativas, a pilotagem é cirúrgica. Permite frear forte no último segundo, entrar na curva já alisando o acelerador e, mesmo antes da saída, dar uma patada do pedal da direita. Com a turbina cheia e ofegante, o Cooper rapidamente ganha velocidade novamente.

A eletrônica está de plantão para corrigir eventuais abusos. O MINI tem freios (discos ventilados na dianteira e sólidos na traseira) com ABS, EBD (distribuição eletrônica da força de frenagem), além do CBC (Corner Brake Control), que por meio de leves pinceladas no disco de freio corrige a trajetória do ‘petardo’ nas curvas.

É possível desligar o controle de tração parcialmente – ideal para rodar em pisos um pouco mais irregulares – ou completamente, segurando o botão no painel central por alguns segundos. Quando desliguei para ver até onde o MINI iria, as saídas de frente tornaram-se mais comuns. Comportamento típico de um tração dianteira. A tocada então fica ainda mais detalhista. O coice no pedal da direita passa a ser um pouco mais progressiva – para quem gosta de dirigir, esta é a melhor condição. O delicioso sabor do antagonismo entre a necessidade de ser suave e o anseio de ser agressivo.

Talvez neste ponto, o Fuscão com sua tração traseira e a ausência completa de eletrônica pudesse ser tão divertido quanto o garoto da Terra da Rainha. Talvez...

Firme igual a uma pedra, a suspensão garante a tal sensação de estar pilotando um kart – independentes, McPherson na dianteira e Multilink na traseira. Para a estradinha, o setup é perfeito. No entanto, cobra caro na cidade. Toda e qualquer imperfeição no asfalto é sentida de maneira forte e desconfortável. Em todos os buracos que acertei, as batidas foram secas – uma vez cheguei a parar em um posto para ver se estava tudo bem com as belas rodas de liga leve de 18 polegadas e com os pneus de perfil fino. É preciso entender, no entanto, que esta é a proposta do JCW. Deixar a regulagem macia, diminuiria muito o tempero de quem foi concebido exatamente para ser um ‘foguete’.

Você pode imaginar que mexendo nos modos dinâmicos de condução e deixando na função Mid ou Green (a terceira é a Sport), o MINI fique mais suave. Não. Nada disso. Ele continua firme (demais). Os únicos parâmetros que mudam de forma um pouco mais acentuada são a resposta do acelerador, o peso da direção elétrica (fica mais leve), o mapeamento da injeção eletrônica e o câmbio que passa a fazer a troca em rotações mais baixas. A suspensão muda também, mas muitíssimo pouco. Longe de deixar o MINI suave. A escolha destas configurações é feita por intermédio de um botão na base do câmbio.

O volante multifuncional é menor – lembra o do Tomate (em tamanho, não em botões). A empunhadura é perfeita, com posição agradável para os dedões. E se o JCW fosse uma camiseta, seria tamanho ‘M’. Os bancos dianteiros esportivos têm grandes abas laterais para segurar o corpo dos ocupantes. Eu, com meu 1,72 metro de altura e 74 kg, me senti muito confortável – ‘apertado’ na medida para não deslizar nas curvas, e solto o suficiente para não me sentir amarrado. As regulagens dos assentos são manuais, como manda o manual de um carro de pista, assim como os ajustes de altura e profundidade da coluna de direção.

E dentro de toda esta esportividade, senti falta de uma das características mais gostosas naqueles que se propõem a ser minimamente esportivo: o ronco. O som do escape de saída dupla e central não chegar a empolgar tanto. Poderia ser mais barulhento, especialmente nos momentos das mudanças de marcha, e nos ‘pipocos’ quando se tira o pé do acelerador e faz uma reduções. Estranho escrever isso, mas até o isolamento acústico poderia deixar vazar um pouco mais o som do bloco. Quem sabe um daqueles botões, comuns em superesportivos, que atuam exatamente no ‘volume’ do escapamento.

Só não precisa – e nem deve - ficar igual ao Tomate Voador e seu escape aberto, que o fazia ser ouvido há dois ou três quarteirões.

EGOISTA

Assim como o Tomate Voador, o MINI Cooper JCW é um egoísta. Tem lugar para quatro ocupantes (no caso do Fusca, cinco), mas leva com um mínimo de conforto somente dois (os da frente), e agrada totalmente apenas o motorista. Com ISOFIX nos dois assentos de trás, o inglês consegue levar apenas bebês na cadeirinha. Crianças com mais de 1 metro de altura já sofrem com as pernas, mesmo as pessoas que viajam nos bancos da frente tenham estatura mediana. E sendo apenas duas portas, o acesso ao banco traseiro é horrível – minha coluna sofreu para colocar minha filha na cadeirinha.

Fato: o Cooper não é um carro para a família, nem mesmo para uma família jovem. É no máximo – forçando a barra – para um casal. Na real? O JCW é ideal para quem gosta de dirigir sozinho. O porta-malas, por exemplo, tem espaço para apenas para 211 litros. É um caixote ideal para levar as compras da semana – se for as do mês, algumas sacolas terão que ser levadas nos bancos.

Entretanto, atrás deste egoísmo todo, existe uma máquina que quer tratar bem todos os seus ocupantes. O MINI Cooper JCW tem excelente lista de equipamentos de série: ar-condicionado digital automático de duas zonas, head up display (tecnologia que projeta em uma pequena tela sobre o painel de instrumentos informações sobre o veículo, como por exemplo a velocidade), sensores de estacionamento, câmera de ré, central multimídia com sistema de navegação por GPS e controle por meio de um comando no console central no melhor estilo BMW (proprietária da marca, aliás), sistema de som refinado da Harman-Kardon, frenagem automática de emergência (atuação completa até 60 km/h), controle de cruzeiro adaptativo, teto solar duplo (apenas o da frente abre), bancos revestidos em couro Alcântara, recursos de conexão com smartphone que permite utilizar aplicativos de música, como Spotify e de redes sociais, caso do Twitter.

O preço de tantas comodidades é a grande quantidade de botões espalhados por todo o carro. Nem sei quantos ao certo. No segundo dia de avaliação, depois de já ter fuçado exaustivamente no interior, eu ainda estava descobrindo comandos novos. Talvez utilizar o grande visor do painel central – aquele que parece uma balança antiga de farmácia – pudesse, futuramente, ser sensível ao toque e ter concentrado ali boa parte das funcionalidades. A Volvo, com o novo XC90, fez bem isso. Assim como a Tesla há alguns anos. Muito botão incomoda. Não é nada intuitivo.

O interior é bem acabado e as peças são perfeitamente encaixadas. Alguns materiais em plástico duro – os poucos que têm – poderiam ser emborrachados. O painel de instrumento simples (o que é bom), com conta-giros e velocímetro pequenos e analógicos me agrada. Incomoda apenas a quantidade de luzes coloridas que brotam no interior. Algo que exagera na tentativa de ser lúdico. Simpático demais. Com o JCW o papo é, ou deveria ser, reto.

RACIONAL?

A intensidade do John Cooper Works tem uma face contraditória. Ela pode ser contida e transformada em economia de combustível. Selecionando o modo Green (condução dinâmica) e mantendo a função start-stop em funcionamento, me surpreendi com um consumo médio acima dos 9 km/l. Rodando em horários de trânsito fluindo, passei da casa dos 10 km/l. Mas se andar chutado o tempo todo, facilmente os números ficam na casa dos 7 km/l.

CONCLUSÃO

O MINI Cooper JCW é a materialização da diversão ao volante em tamanho reduzido - muito caro (R$ 162.950). Apesar das dimensões urbanas, na medida para ser chamado de ‘city car’ como seus antepassados, os comportamentos técnico e dinâmico fazem com que se torne um excelente carro para cair na estrada – sozinho ou acompanhado, no máximo, de mais uma pessoa. Não é para ser usado de segunda a sexta, mas para passear de sábado e domingo. Intenso, consegue aflorar o desejo de dirigi-lo. Pilota-lo. Assim como Tomate Voador há 30 anos. O sorriso de canto de rosto do meu tio toda vez que fala do Fuscão não me deixa mentir.

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Jogador de futebol frustrado, resolveu ser jornalista para escrever sobre tudo que tivesse motor, fizesse (muito ou pouco) barulho e fosse possível de pilotar. Aficionado por superesportivos e clássicos, pensa agora acelerar também sobre duas rodas...

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