JAC J5 é carta fora do baralho

Com câmbio manual e motor 1.5 a gasolina, sedã chinês segue como última opção

WM1 / 21/12/2015 às 18:15atualizado 13/07/2016 às 17:39

Responda rápido: se estivesse atrás de um sedã médio, como Honda Civic ou Toyota Corolla, você consideraria a compra do JAC J5? E se a opção de compra fosse um sedã compacto, como Ford New Fiesta Sedan, Honda City ou mesmo Chevrolet Cobalt. Você pensaria no chinês? Aposto que a resposta para estas duas perguntas tenha sido um convicto “não”. E é totalmente compreensível, pois apesar de ter passado por uma leve atualização, o J5 vive às margens da cabeça do consumidor. É um carro zumbi. Um morto-vivo.

E não é maldade. Para se ter uma ideia, o modelo sequer aparece na lista de emplacamentos de novembro da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores). No entanto, para as concessionárias que liguei, pelo menos uma unidade 0km estava disponível. Ou seja, apesar de não parecer, o carro ainda é oferecido normalmente.

E razões não faltam para o J5 estar sumindo do mercado. Trata-se de um modelo pouco competitivo em muitos sentidos. O preço inicial é R$ 65.990, de acordo com o site oficial da marca. A opção que eu rodei, porém, custa R$ 71.990 (Pack 3). E por este valor, o comprador leva um carro do porte de um sedã médio, mas com motor 1.5 16V somente a gasolina de 125 cv de potência e o mais complicado: câmbio manual de cinco marchas. De acordo com alguns executivos que consultamos, no segmento dos sedãs compactos e médios, a procura por modelos com câmbio automático é muito forte.

Em termos de equipamentos, o JAC também não vai além para justificar o que cobra. Airbag duplo frontal, freios ABS (antitravamento) com EBD (distribuição eletrônica da força de frenagem), rodas de liga leve de 16 (pneus 205/55 R16), espelhos, travas e vidros elétricos, direção hidráulica, ar-condicionado, câmera de ré, sensor de estacionamento traseiro, central multimídia com tela sensível ao toque, bancos revestidos em couro e volante multifuncional. Um pacote, digamos, padrão.

Mas se o comprador olhar para os concorrentes, não terá dificuldade para encontrar alternativas mais interessantes. Um exemplo é o New Fiesta Sedan. Desembolsando apenas R$ 300 a mais é possível comprar a versão Titanium com motor 1.6 16V Flex de 128 cv e transmissão automatizada (dupla embreagem) PowerShift de seis marchas. No pacote de itens de série destaque para os 7 airbags (fronais, laterais, tipo cortina e de joelho para o motorista), controles de tração e estabilidade, sensores de chuva e crepuscular, controlador de velocidade, ar-condicionado, central multimídia, Assistente de Emergência, direção elétrica, sensor de estacionamento traseiro, isofix e rodas de liga leve de 16 polegadas.

Isso sem falar em outros concorrentes, como o City, que na configuração topo de linha EXL (motor 1.5 16V bicombustível e transmissão automática CVT) é somente R$ 720 mais caro. O novo Cobalt, na opção Elite (motor 1.8 Flex e câmbio automático de 6 velocidades), é R$ 4.000 mais em conta. E o Hyundai HB20 S, na versão Premium (motor 1.6 16V Flex e câmbio automático), chega a ser impressionantes R$ 8.585 mais barato.

Já deu para justificar, financeiramente falando, o iminente fim do J5. Talvez o foco seja o novo utilitário esportivo compacto J6...

ENTÃO...

Parado no engarrafamento ou no estacionamento, o JAC J5 nunca chamará a atenção. É um carro de linhas discretas. “Ele não é feio. Mas não encanta”, disse um amigo ao me perguntar se eu estava o testando. Encarei a declaração até como um elogio, pois alguns carros chineses ainda trazem um design que não conquista o brasileiro imediatamente. Muitos, inclusive, são realmente desprovidos de beleza – uma maneira educada de escrever que são feios.

A recente atualização do visual, aliás, foi pontual, mas interessante. A frente ficou mais refinada e conseguiu esconder as ‘rugas’ que já eram aparentes. A mudança da lanterna traseira, que traz uma filosofia (guardadas as devidas proporções) ao estilo BMW, também contribuiu. Faltou dar uma mexida na lateral – quem sabe na altura da linha de cintura – para agregar mais porte ao sedã.

O volante tem boa empunhadura, o problema é que a coluna de direção tem apenas regulagem de altura. Ajuste de profundidade é fundamental para encontrar a melhor posição para dirigir, especialmente em sedãs, que normalmente oferecem assento mais baixo para sugerir esportividade. Apesar disso, a ergonomia não é ruim, com a manopla do câmbio bem localizada, assim como os botões dos controles de climatização.

Algo que me surpreendeu, pois esperava algo de qualidade inferior, foi o acabamento. Algumas peças são de materiais mais agradáveis ao toque. O black piano e o cromado, que em carros chineses – e também franceses, não vamos negar – são utilizados algumas vezes em excesso, estão em equilíbrio. O painel de instrumentos tem um design limpo e com grafismo ok. O problema é que o leitor central, entre o conta-giros e velocímetro, não traz todas as informações que um computador de bordo necessita, como consumo médio de combustível. Hoje, carros considerados populares oferecem tal recurso como item de série.

A melhor qualidade do J5 é o espaço interno. Com 4,59 metros de comprimento, ele oferece 2,71 metros de distância entre os eixos. Tamanho suficiente para transportar cinco pessoas grandes. O porta-malas também tem interessantes 460 litros.

RODANDO...

A ficha técnica do JAC entrega que o J5 não é referência em desempenho. A potência máxima de 125 cv a elevados 6.000 rpm não é o problema do motor 1.5 16V (quatro cilindros aspirado), mas o torque de apenas 15,5 kgf.m a medianos 4.000 giros, levando-se em conta que o chinês pesa 1.310 kg. As acelerações são morosas e as retomadas agradam apenas em rotações mais elevadas.

A velocidade máxima, de acordo com a própria fabricante, é de 188 km/h. E a aceleração acontece em morosos 11,8 segundos. Em termos de consumo, os números também estão longe do ideal, com 9,5 km/l na cidade e 11,6 km/l na estrada – Somente nota C no Programa Brasileiro de Etiquetagem do Inmetro.

O câmbio ainda é um pouco barulhento nos engates, mas já melhorou em relação às primeiras unidades, que tinham um ruído incômodo. A precisão também melhorou. Ainda está longe das transmissões oferecidas por Volkswagen ou mesmo pela Ford.

CONCLUSÃO

Diante da concorrência pesada entre os sedãs médios e compactos, o J5 é um absoluto coadjuvante. Melhor dizendo, um figurante somente. É possível ressuscitar? Sim, mas envolvendo inúmeras mudanças, como utilização de um motor maior e mais moderno (uma boa pedida seria o 2.0 16V flex do J6), adoção de uma transmissão automática (poderia ser a de 4 marchas que existe no modelo vendido na China) e incremento dos itens de série – dos mais simples, como um computador de bordo mais completo, aos essenciais pensando em segurança, tipo controles de tração e estabilidade. E não bastando fazer tudo isso, o preço tem que ser menor. E isso por um motivo simples: o mercado brasileiro ainda tem preconceito com carros chineses – como mostrou reportagem especial da WebMotors sobre as dificuldades de revender um modelo chinês. Sabemos que o momento financeiro da JAC não permite uma revolução desta em um único produto. Por isso, a alternativa mais sensata esteja na aposentadoria do J5 e já trabalhar em um substituto. A única coisa que não pode é continuar sendo zumbi.

Consulte preços de carros novos e usados na Tabela Fipe e WebMotors.

Jogador de futebol frustrado, resolveu ser jornalista para escrever sobre tudo que tivesse motor, fizesse (muito ou pouco) barulho e fosse possível de pilotar. Aficionado por superesportivos e clássicos, pensa agora acelerar também sobre duas rodas...

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