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Oficina Mecânica Rondini.

Oficinas clássicas e seus mestres

Ainda é possível achar mecânicas à moda antiga com serviço, preço e atendimento melhores que muitas concessionárias...

WM1 / 28/12/2016 às 13:45

Elas têm 30, 40, 50 anos de história - ou seria tradição? Estão por décadas no mesmo local. A informalidade marca o atendimento e a experiência, o serviço. Apesar de as garantias de fábrica estarem cada vez maiores e ‘prendendo’ os compradores, obrigando-os a realizarem revisões periódicas, instalações de acessórios e demais manutenções nas próprias concessionárias, as oficinas clássicas sobrevivem à moda antiga: oferecendo atenção especial, preços atraentes e o mais importante: qualidade!

Desde 1998 na esquina da rua Coronel Botelho com a Bela Aliança, na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo, pai e filho tocam a Auto Mecânica City. Especializada em todos os tipos de serviços – e os certificados emoldurados e pendurados em uma das paredes provam o vasto repertório da dupla -, Sr. Nelson Tassa, 64 anos, e André Tassa, 36, têm clientes de quando a oficina ficava na Vila Ipojuca, há quase 40 anos (neste meio tempo, a rua Guaipá abrigava a tradicional mecânica).

“Temos todos os tipos de clientes. Os fieis, aqueles que vão e voltam. Tem um que vem de Boracéia (Litoral Norte paulista) só para fazer a manutenção, e retorna. Tem outro que vem de Campinas (SP)”, conta André, que acompanha o Sr. Nelson na mecânica desde os 7 anos, quando estava em férias. “Dos 12 para os 13 anos, eu trabalhava (na oficina) de manhã e estudava à tarde”, complementa o proprietário, que foi se especializando no passar do tempo com curso no Senai.

A Auto Mecânica City atende todos os tipos de carros. Nos elevadores é possível ver desde um modelo do novo Fiat Uno, passando por uma Volkswagen Quantum um pouco ‘baqueada’, e até um VW Gol GTI clássico impecável.

Tradição também marca a Shilling Auto Center. O nome é uma referência à rua em que está localizada – rua Schilling, 185 também na Zona Oeste paulistana – e o Sr. Osvaldo Arashiro, 69, de origem nipônica, é quem comanda as coisas. “Comprei aqui em 1972, quando disseram que o Mercado Municipal ia sair do centro”, revela o dono, que era verdureiro de ofício. “Fui assumir o comando, depois de ter alugado o prédio, em 1985, quando decidi aprender sobre carros”.

Cheguei a ter sete funcionários. Hoje tenho apenas três

Sr. Arashiro conta que chegava sete horas da manhã e começava a atender os primeiros clientes. “Recebia logo uns 10 veículos, que na época eram Fuscas, Brasílias, Chevettes. Tinha muito Fiat 147, também”, recorda, exaltando que na época atendia cerca de 20 carros por dia. Por conta da alta procura, precisava abrir também aos domingos. “Cheguei a ter sete funcionários. Hoje tenho apenas três”, revela Osvaldo, enaltecendo que bons profissionais no ramo são raros. “Os novos dão muito trabalho”.

Encontrar mecânicos capacitados em todos os sentidos – do conhecimento técnico à postura no dia a dia – também é um problema para a família Tassa. Hoje, a Auto Mecânica City conta com somente dois profissionais, um deles ganhando por comissão. “A garotada de hoje não quer saber de sujar as mãos”, explica André, que teve uma experiência por três meses em uma concessionária Volkswagen.

“Nas concessionárias, o consultor é quem escuta a reclamação do cliente. Ele então coloca em um papel a ordem de serviço, e o mecânico apenas faz o que é pedido”, detalha, deixando claro o atendimento frio e burocrático. “Outro problema é que, atualmente, devido as reduções de gastos, muitas (concessionárias) estão contratando moleques, que fazem a manutenção básica, mas não estão preparados para problemas mais graves”, completou.

DURANTE A ENTREVISTA...

Na Schilling, a conversa foi interrompida duas vezes. A primeira, um rapaz deixava seu Chevrolet Celta por conta de um barulho. “Você tem o celular do meu pai. Depois o Sr. (Arashiro) liga para ele e passa o orçamento. Quando o Sr. acha que posso retirar o carro amanhã?” Cinco minutos depois, um homem de nome Osmar se aproximou do balcão em silêncio e foi imediatamente interpelado pelo proprietário: “Veio tomar um café”. A informalidade definitivamente é uma qualidade e a tradição, o selo de garantia destas oficinas clássicas.

Nas concessionárias, o consultor é quem escuta a reclamação do cliente. Ele então coloca em um papel a ordem de serviço, e o mecânico apenas faz o que é pedido

FUTURO

André analisa com otimismo o atual momento das mecânicas. Além de clientes fiéis, conquistados na base do serviço de qualidade, preços justos e relacionamento, ele faz serviços para a frota de veículos de uma empresa que presta serviços para telefonia. “Atualmente, os carros de muitas locadoras já ultrapassaram o tempo ou a quilometragem estabelecidos pela garantia, e acabam nos procurando para serviços de manutenção”, diz o proprietário, que não quer ficar mais 40 anos no ponto. “Até lá quero estar aposentado. Quem sabe passar o comando para o sobrinho”, brinca, bem-humorado.

O Sr. Arashiro, no entanto, já caminha para encerrar as atividades. “Não seis se vou continuar com isso aqui”, revela. Com “os filhos encaminhados na vida” – formados e trabalhando -, quer descansar. Sem um herdeiro que tenha sido contaminado pelo vírus da graxa, baixar as portas definitivamente pode ser o caminho a trilhar...

INCRÍVEL

Na rua Carlos Weber, também na região da Zona Oeste, quem passa desapercebido apenas se questiona sobre a concentração de veículos raros estacionados. De um lado Mustang. Logo à frente um Galaxie. E do outro lado da rua um Maverick impecável. Pois é, em uma portinha na altura do nº 173 está a Oficina Mecânica Rondini. Aliás, está há cerca de 50 anos. É chão...

“Meu avô morava na esquina, então meu pai comprou aqui – que era uma casa – e montou a oficina”, lembra João Aldir Rondini, 65 anos, proprietário, em meio a diversos clássicos. Aliás, para ele, Mustang, Maverick, Dodge Dart são esportivos antes de serem clássicos.

O fato de trabalhar apenas com veículos de alto valor não ‘gourmetizou’ a Rondini. Lá, tudo é muito simples. Extremamente limpo. Funcional. Apertado? Não. Sob medida. O tipo de oficina que garotos aficionados por carros passariam horas após os estudos. Ou até mesmo mataria aula para exalar o inebriante cheiro da graxa. No momento da entrevista, sete carros estavam dentro da oficina. Outros seis – entre eles três Mustang e um Fairlane – no estacionamento ao lado e outros três no estacionamento.

“A crise não me afetou. Tenho 16 carros para mexer. Os clientes daqui a pouco vão querer cortar minha cabeça”, brinca. “Na realidade, tenho até negado trabalho”, completa.

Especialista em restauração e consertos mecânicos em geral – não faz funilaria nem tapeçaria, seu negócio é mesmo graxa -, sr. Rondini não pensa em parar. “Às vezes até me passa pela cabeça, mas vou ficar em casa fazendo o quê?”, explica. “Vou ficar aqui até quando Deus quiser. E quando eu morrer, tudo aqui será do Décio, meu funcionário a 33 anos”, exalta. “O que ele vai fazer com isso aqui depois, eu não sei”.

Às vezes até me passa pela cabeça (parar de trabalhar), mas vou ficar em casa fazendo o quê

Assim como os outros proprietários de oficinais, sr. Rondini sofre com a falta de mão de obra qualificada. Além de Décio, mais um jovem curioso, que quer aprender sobre mecânica, ajuda nos serviços. “Eu precisaria de mais um mecânico, mas não encontro. Mecânicos que vem de outras oficinais chegam cheios de vícios”, diz mexendo a cabeça em sinal de negativa.

Sr. Rondini tem muitos clientes. Alguns de longuíssima data. Estamos falando de proprietários que levam suas joias sobre rodas há mais de 30 anos para serem consertadas ou restauradas na clássica oficina da Vila Leopoldina.

Ele não lembra especificamente de uma história que o marcou durante estes mais de 50 anos. No entanto, reconheceu sentir um certo ciúme de alguns modelos que são entregues. Modelos que chegaram em estado terminal e que saíram ‘fortes’ e em perfeito estado.

E de tanto mexer com antigos, Sr. Rondini tem o seu: um Landau 1983. “E também um Maverick, que vou fazer para o meu filho...”.

Para quem gosta de carro, as oficinas clássicas, aquelas que estão décadas no mesmo local e já fazem parte da arquitetura do bairro, são verdadeiros oásis. Locais que merecem ser cultuados e salvos da extinção, hoje provocada um pouco pela quantidade de veículos novos e suas garantias de fábrica de 3, 5 ou 6 anos. Claro que existem muitas mecânicas ‘boca de porco’ que entregam um serviço de péssima qualidade, mas é gratificante saber que se procurarmos ainda encontraremos artesãos da graxa em seus ateliês automotivos.

Jogador de futebol frustrado, resolveu ser jornalista para escrever sobre tudo que tivesse motor, fizesse (muito ou pouco) barulho e fosse possível de pilotar. Aficionado por superesportivos e clássicos, pensa agora acelerar também sobre duas rodas...

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