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Horários Alternativos Ilustração

Nem tudo é alegria fora do horário do 'rush'

Sair de casa mais cedo obriga abrir mão de algumas (boas) coisas

WM1 / 25/08/2016 às 16:30atualizado 26/08/2016 às 11:59

Acordar antes do jornal chegar em casa. Deixar o café para mais tarde. Tomar banho e vestir-se no mais completo silêncio para não acordar as meninas. Sair de casa sem sequer receber o sempre alegre e atabalhoado ‘bom dia’ da dálmata endiabrada, que prefere continuar dormindo na casinha. Sacrifícios que me submeti para fugir da ‘hora do rush’, adotando horários alternativos para ir ao trabalho de segunda a sexta-feira. Passei menos tempo nos congestionamentos? Definitivamente. Economizei uma graninha com combustível? Com certeza. Mas nem tudo foi às mil maravilhas...

Para quem gosta de dormir como eu, acordar as 5h15 é uma grande m... E o que complica em especial é o meu talento nato de perder o sono e entrar pela madrugada assistindo noticiários, programas esportivos ou lendo qualquer coisa. Desesperador ver as horas passando e o sono não chegando, sabendo que daqui 4 horas, 3 horas o despertador vai ‘berrar’.

Começar a trabalhar mais cedo me libertou para sair mais cedo, também – hora extra, há algum tempo, não é sinônimo de eficiência (pelo contrário)

Para ganhar mais tempo na cama, eu matei o café da manhã. Todo mundo conhece o valor incomensurável dos 15 minutos a mais... O banho também é de gato. Só para dar aquele chacoalhão nas articulações. O pior, porém, é se trocar no escuro, tateando calça, camisa, meias e sapatos para não acordar a esposa. Não raro chegava a um lugar iluminado – normalmente a sala – e a camisa estava abotoada errada.

 

Tenho uma filha. Quando eu faço parte do problema, ou seja, encaro o ‘horário de rush’, sou responsável por acordar a princesa, colocar o uniforme, dar o achocolatado matinal e o mais gostoso: levar ela para a escolinha. No caminho, ao lado da minha esposa, que também trabalha na Vila Olímpia, músicas da Frozen ou dos Monstros S.A. cantadas à capela pela pequenina, ou um bate-papo sobre os amiguinhos. Saindo as 6h da ‘matina’, tudo isso ficou no passado. E então o horário alternativo fica em check: será que vale a pena?

Partindo no mesmo horário em que o guarda noturno vai descansar, a imagem do retrovisor do carro deixa de ser da sua filha e passa a ser dos faróis acesos. Ao lado, deixa de ser a esposa para ser o banco vazio. A música dá espaço para a informação. As notícias são de um trânsito “fluindo bem”. Um alento enquanto o ronco do estômago é a única ‘voz’ ao vivo no Hyundai HB20.

Quem sabe o dia em que todas as escolinhas passem a receber as crianças a partir das 6h15 e as empresas entendam que ‘horário comercial’ e mesmo a presença física no escritório são coisas do passado, o horário alternativo seja, para quem quiser adotá-lo, só alegria.

Apesar de mais livre, o trânsito nas primeiras horas do dia é insano. Perigoso, eu diria. As motos que no ‘rush’ rasgam os corredores das marginais Tietê e Pinheiros dão lugar aos caminhões. Sempre atrasados para fugirem do horário de restrição e não serem multados, andam acima da velocidade máxima (70 km/h). Conhecem os radares como as palmas das próprias mãos. Outros motoristas também aproveitam para ‘chinelar’ para, assim como os caminhoneiros, escaparem do rodízio obrigatório devido ao final da placa. Cenário perfeito para um acidente – aquele que vai travar ainda mais o trânsito e ser protagonista de mais um recorde de engarrafamento.

Começar a trabalhar mais cedo me libertou para sair mais cedo, também – hora extra, há algum tempo, não é sinônimo de eficiência (pelo contrário). Às 16h em ponto mando aquele ‘abraço’ no escritório e caio no mundo. Conto os minutos no relógio por um único motivo: é sair da Webmotors para ir buscar a princesa na escolinha. De lá, direto para casa para, enfim, curtir as meninas – inclusive a dálmata endiabrada. Infelizmente, a volta é, assim como a ida, sem a esposa. Ela saiu na hora do rush. Vai largar o batente por volta das 18h – e chegar somente depois da 19h, com certeza.

Adotar horário alternativo é muito bom em diversos sentidos, mas acaba sacrificando muitos outros. O principal deles, no meu caso especificamente, é abrir mão de uma convivência matinal com minha família, algo que valorizo demais. Não somente ir e voltar para o trabalho ao lado da minha esposa, mas deixar e buscar minha filha na escola. Todos juntos. Por isso, emocionalmente falando, adotar horário alternativo está muito longe de ser 100% positivo. Colocando os prós e os contra, talvez seja abaixo dos 50%...

Quem sabe o dia em que todas as escolinhas passem a receber as crianças a partir das 6h15 e as empresas entendam que ‘horário comercial’ e mesmo a presença física no escritório são coisas do passado, o horário alternativo seja, para quem quiser adotá-lo, só alegria. Além de uma mudança pessoal, é necessária uma forte reflexão social sobre o tema. Isso sem falar de melhoria no transporte público, compartilhamento de veículos....

Jogador de futebol frustrado, resolveu ser jornalista para escrever sobre tudo que tivesse motor, fizesse (muito ou pouco) barulho e fosse possível de pilotar. Aficionado por superesportivos e clássicos, pensa agora acelerar também sobre duas rodas...

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