Volkswagen Fusca 1951 - tuning

Fusca 1950 Split Calstyle é orgulho de pai e filho

Jovem herda raro Fusca 1950 e dá continuidade à paixão do pai com customização CalStyle

WM1 / 19/05/2017 às 14:30

O raríssimo Fusca 1950 Split estaciona no interior de São Paulo e, como esperado, curiosos começam a brotar. De dentro de um bar, um homem pergunta detalhes do Volkswagen. Espantado com o ano de fabricação ele pergunta: “Então é importado?”. “Sim”, responde Fabio Viegas, dono da joia. O carro chegou ao Brasil nos primeiros lotes. Outro homem desce de sua moto Honda Shadow, estica a jaqueta de couro e diz. “Muito bonito seu Fusca. Por quanto você venderia?”. Fabio respira fundo e responde sem tirar os olhos do carro. “Ele não tem preço”, diz.

A frase não é uma tática de negociação. Fabio cresceu dentro deste Fusca, o xodó de seu pai, Edson Viegas, conhecido como Xuxu. Fabio e seus dois irmãos, Denis e Bruno, acompanhavam desde pequenos o pai aos encontros de colecionadores de Volkswagen. A paixão de Xuxu (por Fuscas e pelos filhos) era enorme. Seu sonho era presentear o 1950 para Fábio e restaurar seus outros Fuscas, 1972 e 1955, para Bruno e Denis. Assim, os quatro poderiam sair em comboio, com Edson liderando a fila com sua picape GMC 1951.

Porém, o destino não deixou que isso acontecesse, o pai de Fabio faleceu em 2014. Restou ao jovem de 20 anos levar adiante a paixão de Xuxu. Ele foi a alguns encontros de entusiastas com o (agora seu) Fusca, sempre com seu pai na memória. O modelo 1950 é especial, faz parte dos primeiros lotes que vieram da Alemanha ao Brasil. Seu valor é reconhecido pelos colecionadores. “Desse ano rodando em perfeito estado no Brasil deve haver uns 15 carros”, explica Fábio. Um Fusca 1950 como este vale em torno de R$ 150 mil hoje.

Não cortamos o carro em nenhuma parte e todas as peças originais estão guardadas. Se quisermos dá para montar tudo de volta

Por isso os puristas se contorcem ao ver o Volkswagen de Fabio customizado no chamado CalStyle. “Tem uns caras que cornetam, falam que eu tô estragando a história do carro”, conta. No entanto, tudo que foi feito no Fusca é reversível. “Não cortamos o carro em nenhuma parte e todas as peças originais estão guardadas. Se quisermos dá para montar tudo de volta”, explica Anderson Takeda, customizador da Restaurakar responsável pelas modificações no carro.

E pensar que todas essas mudanças começaram por acaso, quando o motor de arranque do Fusca pifou. “Levei o carro até Mogi das Cruzes, na Restaurakar, para trocar o motor de arranque. Aí já aproveitei para mudar a elétrica de 6V para 12V, para ficar mais confiável”, lembra Fábio. Após esse contato, o jovem passou a frequentar eventos de Volkswagen modificados a convite de André Takeda, irmão de Anderson. E aí começou a imaginar como deixar o seu 1950 ainda mais exclusivo. “Meu pai sempre modificou os carros dele, todos os outros Fuscas eram Speed. Ele não ligava para originalidade, mas sim para funcionalidade e beleza”, explica.

No fim de 2016 o besouro foi para a oficina receber uma série de modificações, das mais sutis às mais radicais. A que salta aos olhos e a suspensão 12 cm mais baixa. Além é claro, do eixo dianteiro 4,5 cm mais curto em cada ponta, uma marca forte do CalStyle. Para conseguir este resultado, Anderson troca todo o conjunto. Na frente vão duas mangas invertidas da marca Empi, e duas catracas. Na traseira é colocado um facão regulável e a cambagem é deixada num ajuste negativo.

Ele foi muito bem restaurado nos anos 1980 e quero deixar original por dentro

O CalStyle nasceu no fim dos anos 1970 na... Califórnia, claro. Ele tem parentesco com os lowriders, mas uma filosofia diferente. Nessa época, jovens mexicanos na costa oeste dos Estados Unidos decidiram rebaixar carros menores e mais baratos, nada das “banheiras” e musclecars. O VW Beetle era uma das opções mais em conta, e assim nasceu o CalStyle. Além da suspensão, essa escola de customização também pregava na época que a pintura se mantivesse original. O Fusca de Fabio segue essa regra, com o cinza Pearl Grey do documento mantido no carro.

Rodas grandes também são característica do CalStyle. No 1950 elas são da Empi, baseadas no modelo Fuchs. Elas têm 15 polegadas, com tala 4,5 polegadas na frente e 5,5 atrás, e estão montadas em pneus modernos 205/70 na dianteira e 155/60 na traseira. Um alívio para Fabio, que sofria para controlar o VW com rodas 16 polegadas, pneus faixa branca e suspensão original. “Na estrada o carro parecia que ia mudar de faixa sozinho, não passava confiança. E não é porque havia algo quebrado, é característica do carro dessa época”, conta.

A customização de Anderson não ficou só na suspensão. Para-choques dianteiro e traseiro do Fusca 1950 tem uma linha preta no meio do cromado. Para quebrar esse detalhe “sério”, ele pintou essa parte com Vermelho Flash e repetiu o toque nas rodas. Uma grande luz de freio foi acrescentada, para ajudar as pequenas lanternas originais. Um detalhe, onde estão os sinais de seta? São as famosas bananinhas na coluna B. A carroceria não foi modificada, apenas pequenos amassados foram arrumados.

Por dentro o Fusca não foi alterado, mas Fabio quer em breve arrumar alguns detalhes. “Ele foi muito bem restaurado nos anos 1980 e quero deixar original por dentro”, explica. Foi no banco de trás do besouro que ele e seus irmãos passaram alegrias e apuros. Fabio recorda uma vez que o mais velho, Denis, ficou muito vermelho depois de um dos passeios. Na volta, dentro do VW, ele começou uma briga com Bruno. “No final o Denis tomou um socou do Bruno e começou a sangrar por causa da pele queimada pelo sol”, lembra rindo.

Em outra ocasião a família subia a serra pela rodovia dos Imigrantes, voltando do Guarujá. O horário era apertado, pois Edson era dono de pizzaria e precisava voltar a capital paulista logo para tocar o negócio. “A gente encheu o saco do meu pai para parar num posto no caminho . O problema é que os Fuscas antigos esquentam muito e depois, se pararem, não pegam de jeito nenhum. Aí a gente ficou lá preso no posto em pleno domingo”, recorda Fabio em meio a risadas.

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Por falar em motor, nessa parte ninguém mexeu. O quatro cilindros boxer aircooled 1.1, que rende cerca de 25 e 6,9 mkgf de torque, permanece original. Apenas foi colocado um escape inspirado nos Abarth que equipavam os Porsche 356. O câmbio manual não têm sincronizada. Por isso é preciso trocar as marchas no giro certo, fora disso se ouve uma arradinha. Porém, Fabio diz que agora consegue aproveitar muito mais o carro. “Com a suspensão baixa o Fusca ficou mais seguro, consigo estabilidade. E o motor aguenta bem, na estrada vou a uns 100 km/h sem problema”, comemora. Ele conta que este ano já rodou quase 4.000 km com a raridade.

Para o futuro o Fusca deve ganhar novo sistema elétrico, pois o original ainda usa cabos com revestimento em tecido. Um motor 1.7 mais moderno também é possibilidade, para dar um descanso ao original. Por enquanto Fabio quer curtir o presente que o pai lhe deixou. “Acho que ele ficaria orgulhoso do que fizemos ao Fusca. Acho que ele só não fez porque não deu tempo”, diz. Realmente não há preço para o amor e as lembranças impregnadas em cada peça deste raro Fusca 1950 Split.

Por Carlos Cereijo

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